1º Episódio - Vinicius Calderoni

por FERNANDA BONADIA

Tira-gosto​​​

Enquanto as caixas de som expeliam sertanejo no volume máximo na concessionária da esquina e os motores e buzinas tomavam conta da Avenida 23 de Maio, a porta de madeira do número 267 na Rua Pedroso servia como um portal que divide dois universos distintos, embora propositadamente conectados pelas câmeras 5D e 7D.

Se para os pedestres e o vendedor de pamonhas fresquinhas o Casarão do Belvedere passava despercebido, como apenas um prédio histórico de São Paulo, a verdade é que o interior deste edifício, nascido no mesmo ano que o pernambucano Bezerra da Silva e o carioca Tom Jobim, era preenchido por outro tipo de “barulho”. A arte do barulho! Aquela cheia de harmonia, feita por uma voz em seu devido tom acompanhada do afinado violão.

O dono das composições entoadas em lugares inusitados, como o corredor coberto de folhas do outono e o estreito lavabo, é Vinicius Calderoni, o primeiro dos convidados a participar do projeto Ao Vivo No Casarão e ensaiar sua arte diante das câmeras Canon.

Fugindo de todas as convenções, o programa retira a música de seu habitat natural, causando um delicioso estranhamento. O som gravado no casarão inquieta o espírito: há algo mais a ser compreendido!  O cenário aqui não é coadjuvante, mas impõe sua própria ordem e é ativo em todas as cenas filmadas. Além da voz e do violão, o som é rematado pela vida da cidade e pelos ecos do Belvedere.

Assim, a escolha de começar com o Vinicius Calderoni foi certeira. Nada como o conforto de trabalhar com o amigo de longa data e parceiro de outros projetos. Há um respeito prévio e uma confiança já estabelecida que facilitam a permissão para a reinvenção de sua obra. E, nesse sentido, o Vini compartilhou seu desprendimento com toda a equipe.

Mais que isso, as canções entoadas pelo múltiplo artista têm sabor de bolo recém-saído do forno, que esparrama seu cheiro para que todos saibam que ele existe, mas que ainda não dá as caras para ser degustado. Ao contrário! Ele é mantido oculto na cozinha do confeiteiro, esperando o momento certo de ser devorado pelo público.

Isso por que duas das músicas ensaiadas para a equipe do Ao Vivo No Casarão fazem parte do novo disco do Vini, o Para Abrir Os Paladares, que será lançado no próximo domingo, dia 24, às 19h, em show no Itaú Cultural da Avenida Paulista. A entrada é gratuita.

Entrada

As gravações do primeiro programa começaram cedo para um feriado: muito antes do sol clarear o céu paulistano. Como o artista tinha outro compromisso no Rio de Janeiro naquela tarde, a equipe chegou antes no casarão para aprontar todos os sets, tomar um caprichoso café-da-manhã e estar a postos para apertar o rec assim que o Vinicius chegasse.

A opção foi por uma produção mais simples. No dia, somente sete pessoas trabalharam com áudio, câmera, arte e fotografia. A iluminação foi primordialmente com luz natural. Cada cena foi gravada com três câmeras e dois microfones, um para a voz e outro para o violão, de forma que o som ambiente também fosse captado.

A ideia era experimentar o casarão pela primeira vez e entender o que o próprio lugar poderia oferecer antes de inventar cenários complexos, utilizar diversos objetos e criar fotografias que não compactuassem com o prédio, a música e a proposta de ser ao vivo.

Diante de tantas novidades, a tensão tomava conta dos ombros de todos. Da equipe, essencialmente, pois não havia espaço temporal para atrasos e nada poderia sair do compasso. Mas, também era o primeiro compromisso oficial do artista de tocar ao vivo o novo trabalho. Assim, antes de cada “Gravando!”, o Vini ficava consigo mesmo sussurrando as canções em um ensaio íntimo.

Ora, algo que pretende abrir os paladares inclui a experimentação de novos temperos e o encontro de sabores originais. Esse é o propósito do novo disco, cujo repertório segue a lógica de surpreender a cada oito compassos e não promover um easy listening. Por isso tamanha concentração do músico em querer dar o seu melhor.

Prato principal​

Com a voz ainda afinando no começo do dia, a primeira música interpretada por Vinicius Calderoni foi Desprendimento, letra criada no Mercado de Los Artesanos de Montevidéu, quando o compositor viajava a turismo pelo Uruguai. O texto faz referência ao flâneur, conceito desenvolvido pelo francês Charles Baudelaire, que é aquele que caminha pela cidade observando e experimentando-a, a fim de desenvolver um olhar crítico e compreender fenômenos urbanos.

Esta primeira cena, de um total de três, foi gravada no corredor que liga a varanda em frente ao casarão ao anexo no fundo. Apesar de um carro passar tocando Someone Like You da Adele no volume máximo e atrapalhar o final de um dos takes, outros elementos surpresa foram muito bem incorporados à primeira cena: a luz natural do começo da manhã e o canto de passarinhos.

O mesmo ocorreu durante a segunda música, ensaiada no lavabo do casarão. Nesta cena, a luz que vinha da janela tinha temperatura de cor diferente daquela emitida pela lâmpada, diversidade que foi adotada cena pelo fato da letra da canção tratar de um rompimento com padrões.

Intitulada Sobre Óleo Sobre Tela, a música fala de um estranhamento do mundo. Da nossa vida em sociedade, que é embasada em convenções, frases feitas e vozes de comando tão prontas que já nem percebemos ou refletimos criticamente sobre suas existências.

Pois, o movimento do Vini dentro do banheiro foi construído junto com o próprio artista, que é formado em cinema e teatro, justamente para acentuar o poder dessa canção. Ao se aproximar do espelho durante o refrão, ele não apenas olha fixamente para as câmeras – o que já é muito forte! – mas, também se aproxima do microfone que estava na pia, fazendo com que o áudio aumente de forma natural, transmitindo seriedade.

Ações de cena como essa foram pensadas, em sua maioria, durante as gravações. Avaliadas ali, instantes antes das câmeras serem ligadas. O que não foi diferente com a terceira e última cena do ensaio ao vivo de Vinicius Calderoni.

Enquanto a equipe discutia o enquadramento que seria adotado na sala principal, o proprietário do Casarão do Belvedere e ator

Paulo Goya sugeriu que, para a câmera apontada para a janela, ele passasse no fundo regando plantas na varanda. A equipe adorou!

Assim, a música Vou Mandar Pastar, hit do Tranchã, álbum de estreia de Vinicius Calderoni, encerrou as gravações do primeiro episódio do Ao Vivo No Casarão. O Vini conseguiu chegar em tempo de cumprir sua agenda na capital carioca e a equipe de gravação foi liberada para um almoço tardio.

E se a fome apertou também por aí, pode se preparar para se alimentar muito bem. Esse é apenas o saboroso aperitivo da refeição completa que o projeto trará a sua mesa, permitindo uma degustação prazerosa a cada mordida sonora.

Bom apetite!