5º Episódio - A Arte do Instante com Dimos Goudaroulis e Eduardo Contrera

por FERNANDA BONADIA

 

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Do silêncio vem a música

 

Tocar música no Casarão do Belvedere é conviver com os barulhos da cidade. Localizado no centro da capital paulista, o imóvel de 1927 não possui isolamento acústico, o que faz com que buzinas, conversas, motores, escapamentos e a vida agitada de São Paulo preencham cada cômodo.

 

Vazio. Cessação dos ruídos. Ausência de sons. “Toda música de câmara requer uma atenção e um silêncio quase que absoluto”. A afirmativa é do violoncelista Dimos Goudaroulis que junto com o percussionista Eduardo Contrera formam A Arte do Instante, o duo convidado desta semana do Ao Vivo no Casarão.

 

Mas de que forma alcançar o silêncio necessário para a música de improviso que a dupla se propõe a criar em um casarão no meio da pauliceia desvairada? O sossego e a quietude não combinam com a cidade. Pelo contrário, é a ausência da calma que marca o ritmo de Sampa, letrada por Caetano.

 

A solução foi encontrada pelos próprios músicos. “Há dois jeitos de tocar no casarão, levando em conta a necessidade do silêncio: ignorar o som que vem da rua; ou inclui-lo, obrigatoriamente, interagindo com a cidade”, decide Goudaroulis.

 

Nascido na Grécia, o violoncelista estudou na França por oito anos, até encontrar residência no Brasil, em 1996. Embora seus passos tenham sido mais firmes pela música erudita – especialmente no estudo das suítes de Johann Sebastian Bach para cello –, ele sempre se interessou pela música contemporânea, como o jazz que tocou pelas vias da Cidade Luz e as canções que apresentou ao lado de artistas africanos e indianos.

 

Ao desembarcar no Brasil, até voltou-se para a música clássica antiga, como o barroco, mas também trouxe às terras tupiniquins o lado seu que se aproxima do popular. E foi tocando a “maravilhosa e muito rica” música popular brasileira que ele conheceu o Edu.

 

Músico desde os 14 anos, a formação de Eduardo Contrera na cena artística caminha ao lado de seu vínculo ao Candomblé. O mergulho pelo universo do som instrumental brasileiríssimo se deu a partir do aprendizado de tumbadora e atabaque. Em sua trajetória, já trabalhou ao lado de grupos e cantores solo, no Brasil e em outras fronteiras, e também atua com música cênica do teatro e da dança, diretor musical e contação de história.

 

“Foi muito forte assim pra gente”, lembra Contrera, “foi uma experiência musicalmente muito arrebatadora e combinava com muita coisa que a gente sonhava fazer”. Os encontros entre ambos artistas foram ocorrendo cada vez com maior frequência, quando é produzido um som espontâneo, dentro de casa, que se preocupa com a forma.

 

Aos olhos de Goudaroulis, além da força existente no som produzido pela dupla, o trabalho sempre foi muito aberto. “Para nós está sendo um exercício. É mais que um grupo para vender e ficar fazendo concertos. É muito um diálogo interior”, destaca.

 

Trata-se de um íntimo que deixou sua condição reservada, para ser compartilhado naquela tarde de sábado com um grupo empunhando câmeras. Um desafio e tanto para a equipe do Ao Vivo no Casarão que teria que adentrar o universo do instante e do espontâneo; fazer uma dança independente com as lentes, a fim de captar o ambiente da experimentação, da libertação e da criação fragmentada, que se esvai logo que é realizada.

 

Efemeridade sonora

 

No princípio havia o caos, a escuridão e o silêncio. Do caos veio a vida, da escuridão veio a luz e do silêncio veio a música. Essa cosmogonia dos pigmeus Dimos aprendeu em Paris com um contador de histórias do deserto marroquino.

 

“O som que a gente faz tem uma poesia rítmica. A ideia do ritmo como a forma. Ela faz sentido na hora que ela acaba e desaparece”, explica Contrera. “Pra gente tá gravando agora é curioso e tem uma contradição. A gente sempre pensou em não gravar, considerando que a música em si é diferente da gravação e uma das características dela é desaparecer no ar. Ela some. Então, quando ela acaba é porque ela voltou pro silêncio”.

 

Gravar um som é uma experiência dolorida para o artista, já que a música se faz por um fluxo incessante; já que a música detém um caráter efêmero. “A gravação coloca o músico numa espécie de prisão. E ela tenta colocar a música em algo que parece uma fotografia, congelando aquele momento”, provoca Goudaroulis.

 

E se o violoncelista aprecia essa condição em relação à música da forma mais ampla possível, não é diferente com a improvisação que ele se propõe a exercitar com Contrera. “É uma arte do instante, efêmera. A gente improvisa e aquilo desaparece. Pronto, acabou ali! Foi um momento”, completa o artista.

 

“Por essa contradição, é legal estar gravando, especialmente uma gravação com imagens e por ser algo documental”, afirma Contrera. “Não teria sentido gravar o negócio como um disco comercial com corte e edição da música. A gente pode até ter cortes e edições da imagem, mas a música teria que ser gravada inteira, como ela se dá naquele momento”, conclui.

 

A Arte do Instante. “Uma improvisação que tem um aspecto composicional; que lida com a forma. Ritmicamente, não tem algo constante. Trabalhamos com um tipo de tempo musical diferente. Ocasionalmente tem harmonia e melodia, mas não é muito convencional. A gente trabalha tudo isso dentro de uma ideia formal. É uma improvisação que tem a memória do que está acontecendo. É o instante que vai dando aquilo”, nas palavras do percussionista.

 

Entre nesse delírio auditivo. Desvarie, nem que seja por um instante. Deleite-se!

 

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A ARTE DO INSTANTE

 

Dimos Goudaroulis, 43 anos – violoncelo

Eduardo Contrera, 51 anos – percussão

 

Facebook do Dimos Goudarouliswww.facebook.com/dimosgoudaroulisvioloncello

Myspace do Dimos Goudaroulis https://myspace.com/dimosgoudaroulis

 

Myspace do Eduardo Contrera https://myspace.com/eduardocontrera