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  • Fernanda Bonadia

Episódio 6 | Nervosa


Mulherzinha é o caralho!


O último show apresentado pelo Metallica no Brasil, em janeiro de 2010, levou uma legião de fãs headbangers a ocupar os gramados do Estádio do Morumbi. Entre pirâmides humanas, mijos espalhados pelo chão, roupas pretas, copos de cerveja quente e cordas vocais acompanhando Papa Het, o que mais se via por lá eram homens.

Não que a mulherada não tivesse marcado presença, mas o território do metal é predominantemente masculino. Pelo menos é o que os sexistas têm tesão em reafirmar: “som pesado não é coisa de mulherzinha!”

Pois, o grupo convidado desta semana do Ao Vivo no Casarão chega com os dois pés no peito dos machistas. Formada desde o último ano em que James, Lars, Kirk e Robert pisaram no Brasil, a banda Nervosa é um power trio paulistano de thrash metal comandado por mulheres. E as garotas arrebentam nos vocais, guitarra, baixo e bateria.

“O pessoal enxerga o preconceito contra a gente de uma forma diferente: ‘Ah, não gostei porque é mulher tocando metal’. Não é esse tipo de preconceito que a gente sofre. O preconceito vem de as pessoas acharem que tudo que a gente conquistou foi porque a gente deu dinheiro ou porque a gente é bonita”, lamenta a guitarrista Prika Amaral.

Ao contrário da convencional dobradinha guitarra base e guitarra solo das bandas de metal, Nervosa se vira apenas com as palhetadas de Prika. “É um desafio enorme pra mim. Sempre foi”, afirma. “É muito fácil achar boas musicistas, principalmente guitarrista mulher. O problema é achar uma menina que largue tudo e se dedique da mesma forma que a gente. Além disso, como as coisas aconteceram muito rápido, não houve tempo hábil pra procurar outra guitarrista. Não é só achar, a gente tem que se identificar como pessoa também, porque a convivência é muito forte”.

Ela ainda lembra da necessidade do treino para que duas guitarras formem um par sonoramente perfeito. “Se uma estiver um pouquinho diferente da outra, se torna um desastre. Fica horrível e ao vivo embola bastante, ficando um pouco difícil pra ouvir. Então, pra mim é um desafio enorme fazer base e ao mesmo tempo solando”.


Concepção das nervuras

Nervosa nasceu há três anos, quando a banda de death metal thrash da Prika precisava de um baterista. Um amigo dela indicou uma garota que tocava punk, mas queria participar de uma banda de metal. Prika foi ao encontro da Fernanda Terra e ouviu a proposta de montarem um grupo só de mulheres. “Não cara! Pelo amor de deus! Eu já tive péssimas experiências com bandas só de mulheres, elas são cheias de frescura. Eu gosto de falar as coisas na cara mesmo e tem muita menininha que se ofende. Não to com saco pra isso”, enfatizou.

Apesar de relutar, a guitarrista percebeu que Fernanda era uma garota que levava a sério a vida como musicista, tocava muito e toparia viver da banda. Decidiu acatar a sugestão, até que, em agosto de 2011, elas encontraram a baixista Fernanda Lira que se ofereceu para fazer os vocais. “Tá! Tenta aí...”, respondeu Prika descrente da oferta. “Mas, quando a menina abriu a boca, a gente falou, meu, você é a vocalista, não importa se você não vai tocar baixo”, lembra.

“A minha primeira banda era um metal mais melódico, digamos. Eu aprendi bastante, porque eu tocava muita coisa do Helloween, e o Markus Grosskopf detona lá. A minha segunda banda era mais metal tradicional, e eu tava pirando nuns Accept e Running Wild. A terceira já era death metal melódico. Eu não acho que existe essas coisas de ficar dividindo muito, mas era tipo o Arch Enemy”, detalha Fernanda. “Aí a Nervosa foi a minha primeira experiência com thrash e a primeira experiência trabalhando a coordenação de tocar e cantar”.

Apesar de a formação mais sólida fazer com que a banda saísse do ensaio privativo para dar as caras pro público, foi apenas depois do lançamento do clipe “Masked Betrayer”, atualmente com mais de 224 mil exibições, que as garotas assinaram contratos de management com o americano Jeff Keller e a gravadora austríaca Napalm Records, conseguiram uma agenda cheia para 2013 e o convite para abrir apresentações de bandas gringas, como Land Of The Damage.


Doce morte em um beco úmido

Para receber as headbangers paulistanas no Casarão do Belvedere, nada de lavabo apertado, jardim florido, tapete coberto por almofadas, nem uma sala bem organizada. Desta vez, a equipe escolheu as paredes gastas e emboloradas no exterior do imóvel.

Os blocos cinzentos de uma construção decadente qualquer e a telha de amianto quebrada e já sem cor ajudaram a compor o cenário. Uma referência bem aproveitada do clipe Sweet Dreams do Marilyn Manson. A sensação é a de que estamos em um beco escuro e úmido de Detroit, sendo devorados por belos lábios canibais dessas três garotas.

Se com a banda indie do Radioviernes, a equipe brincou ao colocar os integrantes para tocar em círculo, desta vez a formação clássica observada em cima dos palcos undergrounds da capital paulista foi respeitada: guitarra e baixo a frente da bateria disfarçada no fundo.

A dona das baquetas Pitchu Ferraz foi a última a ingressar no grupo. Em novembro de 2012, a então baterista Fernanda Terra saiu da banda e Amílcar, do Torture Squad, fez algumas dos shows com as garotas. A parceria durou até que Pitchu, mesmo tocando outro estilo musical, se candidatou a vaga e conquistou o banquinho na bateria da Nervosa.

“Eu já conhecia o som delas pela web e achava super legal. Rolou o convite, fui ensaiar, tirei as músicas e é um baita trampo. As gurias fazem umas músicas de 4 minutos, um monte de parte, super bem trabalhado e eu tive que voltar a praticar o thrash metal”, explica Pitchu. “As gurias são legais pra caramba. E é trio, né? Power trio de metal de mina... que não é pra lavar roupa, não! É pra tocar bateria, é pra tocar baixo, é pra cantar. Pra mim tá sendo demais. Nervosa tá foda.”


Para conferir o resultado, dê um play no vídeo acima e mergulhe na viagem de uma GoPro presa no baixo da Fernanda, de um som devidamente agressivo apresentado entre três muros velhos do Casarão, e inspire-se neste metal que vale a pena.



NERVOSA

Fernanda Lira, vocal e baixo

Prika Amaral, guitarra e backing vocals

Pitchu Ferraz, bateria

Site – www.nervosa.com.br

Facebook – www.facebook.com/femalethrash

Youtube – www.youtube.com/nervosathrash

Myspace – www.myspace.com/bandanervosa